Exposição no Museu de Artes Decorativas de Paris destaca a força irresistível do vermelho através dos tempos.
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A cadeira Vermelha integra a amostra no museu parisiense
SÃO PAULO – Falar da cor vermelha é quase um pleonasmo. O vermelho é a cor por excelência, a primeira de todas as cores. Assim falou Michel Pastoureau, em seu Dicionário das Cores de Nosso Tempo – e é o que a exposição Aussi Rouge que Possible, inaugurada recentemente no Museu de Artes Decorativas de Paris, demonstra, numa bela ode ao vermelho e ao papel dessa cor tão sedutora no universo dos interiores, do design, da moda, do poder, da política e do nosso imaginário.
Desde que o mundo é mundo, pessoas e grupos poderosos se revestiram de insígnias, distinções e vestimentas nas cores escarlate, púrpura e carmim. Na Idade Média, era proibido às pessoas comuns vestirem a cor púrpura ou usar adornos nas armaduras, a menos que se tratasse de um príncipe ou tivesse tido permissão. Na simbologia heráldica, as gargantilhas significavam a caridade, a valentia, a ousadia e a generosidade.
Apenas um toque de rubro podia revelar virtudes reais. Não foi, portanto, sem boa razão que Carlos Magno, quando sagrado imperador dos romanos, em 25 de dezembro do ano 800, calçou sapatos de couro vermelho. A partir do século 13, o papa, que até então vestia branco, passou a adotar o púrpura e foi seguido pelos cardeais em escarlate. Na França, os grandes dignitários do exército vestem vermelho e os magistrados, um uniforme rubro. Para recompensar àqueles que prestaram eminentes serviços à nação, Napoleão, em 1802, instituiu a Legião de Honra com a fitinha vermelha tão característica. E quem não sabe que desenrolar um tapete vermelho é costume utilizado pela maioria dos países para receber hóspedes ilustres? Ou, quem já não disse a um amigo que o receberá em casa com tapete na cor tão majestática? Que outra, portanto, poderia ser mais popularmente imponente ou emblemática do que a cor vermelha?
No campo político, com exceção dos países islâmicos, onde a cor é associada à fé, o vermelho é o que vem servindo para ilustrar, universalmente, o comunismo ou a luta. Na França, a partir de 1791, a bandeira vermelha já passara a encarnar o povo oprimido, pronto a se bater contra a tirania. A Rússia, em 1917, viveu o seu Outubro Vermelho e, em 1918, adotou a bandeira vermelha, que depois, em 1922, ganharia a foice e o martelo para celebrar o nascimento da união das repúblicas soviéticas. Na China, o pequeno Livro Vermelho, de Mao Tse-Tung, teve tiragem de mais um milhar de exemplares – e o telefone vermelho marcou a diplomacia internacional nos recentes 40 anos de Guerra Fria.
Em matérias menos ideológicas, como amor e erotismo, o vermelho aparece também imbatível. Na Idade Média, as prostitutas eram obrigadas a usar uma peça de roupa em vermelho, como atestado de seu status, e uma lanterna vermelha nas fachadas dos prostíbulos era a senha do estabelecimento.
Até o século 19, a roupa íntima, ou aquela que tocava o corpo, tinha de ser branca, nunca tingida. Uma das razões era de ordem moral, posto que as cores vivas eram consideradas impuras. A outra, de ordem prática: a roupa de baixo tinha de ser fervida e, caso tivesse cor, a perderia.
Foi justamente nesses tão idos tempos que as cortesãs passaram a adotar o vermelho, a dita cor da luxúria. É quando a mulher começa a se emancipar e os fabricantes de rendas e afins tratam de se adaptar à nova clientela. Surge um novo vocabulário. O vermelho passa a ser sinônimo de pecado, loucura e escândalo. Aparecem também os artifícios da maquilagem, o batom vermelho e o hoje velho rouge para colorir as bochechas.
Cor ambivalente, que pode ter matizes, ser assustadora, majestosa, feérica e infernal, o vermelho teria sua força simbólica por estar ligada a dois referenciais básicos: o fogo e o sangue. A exposição, no quesito interiores, mostra a intemporalidade do vermelho no campo das artes decorativas, técnicas de tingimento de tecidos, o gosto pela laca vermelha chinesa, o papel dos tapetes orientais e como a cor vem colorindo calorosamente paredes de casas principescas há séculos. A Vermelha, a já famosa cadeira dos irmãos Campana, está firme e a postos na exposição, ao lado de uma poltrona também vermelha e orelhuda do século 18. Haveremos de passar por armários neobarrocos como o chamado Inferno, da dupla Garrouste e Bonetti, por vidros vermelhos, móveis e objetos os mais diversos.
Cildo Meireles, em Londres
E quantos já não se inspiraram em bocas vermelhas para anúncios, cartazes e também para o design de móveis? Pois vem dos lábios de Mae West a inspiração para o sofá em forma de boca, até hoje editado pelo Studio 65. De como o vermelho invadiu o imaginário popular, os exemplos são também infinitos: uma ambulância de 1920, soldados de infantaria, carros de bombeiro, um assassinato em cartaz da Benetton, anúncio de meias Scandale, bandeiras vermelhas de alerta, o Papai Noel e por aí vai.
Sempre antenada e ciente do que enfeita e seduz, a moda nunca abriu mão do vermelho, que vai surgir num belo vestido de Elsa Schiaparelli, de 1939, em longas botas de Roger Vivier debruadas de renda, de 1987, num chapéu de palhinha vermelha com recorte de boca na viseira, nas roupas dos nobres, mais precisamente nas capas da realeza que aparecem nas pinturas dos retratos históricos oficiais.
Bem a propósito da cor em questão, embora não esteja na exposição francesa – mas estará em breve e ainda melhor posicionada na Tate Gallery, de Londres, a partir de outubro -, vale lembrar o trabalho do artista brasileiro Cildo Meireles, Desvio para o Vermelho, e que ali estará exposto até janeiro de 2009 – entre outras obras desse artista numa grande individual em sua homenagem. Trata-se de um ambiente todo vermelho, do tapete aos quadros, passando por sofás, mesas, cadeiras e objetos, e que faz parte do acervo do Centro de Arte Contemporânea de Inhotim, em Brumadinho (MG). Cildo, que acaba de ganhar dois prêmios internacionais, o Velásquez e o Ordway, e que é considerado um dos maiores artistas conceituais da atualidade, executou esse trabalho durante a ditadura militar. Numa leitura política, a cor faria alusão às vitimas do regime policial entre 1968 e 1984, mas poderia ser visto também sob outros ângulos, uma vez que a cor pode nos remeter a tantos outros campos dos nossos sentidos e das nossas emoções.
Fonte: Site Estadão